Carreira

Minha Chegada a Uttar Pradesh

Desembarquei em Lucknow numa manhã de outono, o ar carregado de cheiro de chá de especiarias e poluição fina que só uma cidade histórica sabe exalar. O motorista do táxi, um senhor chamado Ramesh, apontou para os edifícios coloniais britânicos enquanto negociava o preço da corrida em hindi, que eu mal entendia na época. Lembro de passar pela Bara Imambara e sentir o peso da arquitetura mogol – aquelas abóbadas enormes, sem vigas, pareciam desafiar a física. Foi ali que percebi que Uttar Pradesh não é só um estado no mapa: é um personagem com camadas de impérios, religiões e um cotidiano vibrante.

Os Templos de Varanasi e a Rotina do Ganges

Peguei um trem noturno até Varanasi, e a experiência já valeu metade da viagem. Ao amanhecer, contratei um barqueiro chamado Govind para me levar ao longo do Ganges. Enquanto ele remava com uma calma quase hipnótica, observei os banhistas fazendo suas abluções rituais, os sacerdotes entoando mantras nos ghats e as piras funerárias de Manikarnika Ghat queimando sem parar – um ciclo contínuo de vida e morte. Govind explicou, em um inglês quebrado, que a cidade tem mais de 2.000 templos, mas que o verdadeiro templo é o rio. Passei a tarde no Templo de Kashi Vishwanath, onde a fila de devotos serpenteava por becos estreitos de paralelepípedos molhados. A energia era tão densa que até minha câmera parecia pesar mais.

A Herança Mogol em Agra e Fatehpur Sikri

De Varanasi, segui para Agra. O Taj Mahal, claro, é deslumbrante – a luz do amanhecer transforma o mármore num tom rosado que nenhuma foto reproduz. Mas o que me marcou mesmo foi o Forte de Agra, onde Shah Jahan ficou preso olhando para o mausoléu da esposa. Um guia local, Mohsin, me mostrou as marcas de canhões na muralha e contou histórias de traições palacianas com um entusiasmo contagiante. Depois, fiz um desvio até Fatehpur Sikri, a cidade-fantasma que Akbar construiu e abandonou por falta d’água. Andar por aquelas praças vazias, com pavões caminhando entre os pátios, dá uma sensação estranha de estar num set de cinema histórico, mas com o calor real de 42°C na nuca.

A Culinária de Rua em Lucknow e Agra

Não dá para falar de Uttar Pradesh sem mencionar a comida de rua. Em Lucknow, provei o famoso biryani de galinha no Tunday Kababi – o arroz perfumado com açafrão e carne tão macia que desmanchava. Foi o primeiro prato que realmente me fez suar de prazer e pimenta. Já em Agra, descobri os petha, um doce de abóbora cristalizada que parece uma goma de mascar açucarada, vendido em barracas coloridas perto do Taj. Cada mordida vinha acompanhada de conversas aleatórias com vendedores que tentavam me convencer de que o deles era “o original”. Uma senhora em Fatehpur Sikri me ofereceu chá em copinhos de barro, e aquele chá com cardamomo e leite condensado caseiro foi o melhor que tomei em toda a viagem.

O Caos Organizado de Allahabad e o Kumbh Mela

Quando cheguei a Prayagraj (antiga Allahabad), estava no meio dos preparativos para o Kumbh Mela, o maior festival religioso do mundo. A cidade inteira estava coberta de tendas e faixas. Conversei com um sadhu que morava numa barraca de lona há três meses; ele me mostrou seu terço de rudraksha e falou sobre a confluência dos três rios – Ganges, Yamuna e o mítico Saraswati. Num ritmo mais calmo, visitei o Forte de Allahabad, onde Ashoka ergueu um pilar de arenito polido que ainda guarda inscrições em brahmi. O que mais me impressionou foi ver como milhares de pessoas se organizam numa cidade temporária com ruas de lama, banheiros químicos e alto-falantes ecoando bhajans 24 horas por dia. Aquilo não era um evento; era uma nação paralela.

Artesanato e Tecelagem em Varanasi

Voltei a Varanasi para mergulhar nos bazares de seda. Entrei numa pequena fábrica familiar no bairro de Sarnath, onde vi tecelões manuseando tear manual para produzir os famosos banarasi – saris de seda com fios de ouro e prata. O dono, Shankar, me explicou que cada peça leva de duas semanas a seis meses, dependendo da complexidade do padrão. Comprei um lenço de seda crua que custou o equivalente a 20 reais, e até hoje uso em noites especiais. Na saída, um menino me vendeu um chai em pote de barro e disse: “Senhor, isso é Varanasi – mil anos de história num gole”. Ele tinha razão.